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Todo mundo quer ser bom

18/09/2011

Reportagem: Liane Alves Revista Vida Simples 08/09/2011

Temos uma dificuldade enorme de enxergar quando pisamos na bola, de admitir nossas mentiras e vilanias, nossas pequenas e grandes malvadezas. No geral, sempre achamos que os outros estão errados, que somos vítimas de uma eterna injustiça. Não conseguimos avaliar uma situação com isenção. Porque dói muito não se reconhecer bom, leal e confiável.

A banalidade do bem

Somos inconscientes do mal que praticamos, e que, aliás, na maioria das vezes é feito em nome do bem, ou do que achamos que ele é. “Está na ordem do dia ser reconhecido como alguém que pratica o bem”, diz Luciane Lucas, professora da Faculdade de Comunicação da UERJ. Mas sem querer, com nossas pequenas ações bem intencionadas, mas ineficazes, somos capazes de provocar mais mal que bem.

No livro A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho, o ex-relator da FAO (o órgão de alimentação da ONU), Jean Ziegler, relata um exemplo que ilustra com clareza a superficialidade de nossas ações. Ao folhear uma revista francesa, ele viu uma foto cuja legenda celebrava a chegada da ajuda humanitária ao Sudão, país africano onde vivem milhares de pessoas em estado de inanição. “Na imagem, aviões lançavam alimentos a baixas altitudes nas matas. Especialista, Ziegler sabia que jogar produtos alimentícios normais para uma população tão desnutrida era praticamente condená-la à morte. Nos últimos estados de desnutrição, uma pessoa só pode receber alimentação líquida, com vitaminas e sais minerais criteriosamente selecionados. Se ela ingere uma comida comum, pode morrer pouco depois”, diz Luciane. Mas esse fato crucial pareceu ser ignorado pela mídia, e certamente o foi, também, por grande parte dos que leram a matéria.

O que Luciane sugere é termos mais responsabilidade com relação a nossas escolhas de como fazer o bem. Até para não fazer besteira.

Vai me ajudar, moço?

Além disso, a verdadeira bondade dá lugar à palavra e à ação do outro. Isto é, tenho de perguntar o que o outro quer, o que ele deseja, antes de querer impor a ele meus modelos e referências.

“O discurso de estímulo à caridade não raro ‘congela’ quem recebe numa incômoda posição de permanente devedor. Estabelece-se um jogo de poder, onde quem dá tem o direito de ditar as regras do jogo, arbitrariamente”, afirma Luciane.

Escondendo o jogo

O desejo obsessivo de praticar o bem pode ser sinal de carências profundas, vindas de outras fontes internas. “O exercício da bondade também não pode ser usado para suprir nossas próprias carências de afeto, ou as carências de afeto de outras pessoas”, diz Amnéris Marone, psicoterapeuta, professora na Faculdade de Antropologia da Unicamp e colaboradora da Associação Palas Athena, onde ministra cursos.

Para poder reconhecer a existência do bem e do mal dentro de nós, ajuda muito a criação que tivemos na infância. “Uma pessoa que teve os pais, ou um professor influente, capazes de ser tolerantes com o mal, o erro ou um limite, vai estar capacitada a se aceitar melhor em sua totalidade e a não projetar suas emoções negativas nos outros, como se não as tivesse”, afirma Amnéris.

Nascimento da bondade

Mas e quando não houve um ambiente afetivo na infância? A resposta pode estar na terapia, com o resgate de outras vivências amorosas experimentadas, por meio da palavra ou do corpo. A solução também pode estar no trilhar de um caminho espiritual. “O ser humano é o ser que anseia por amar, que foi programado para amar e agir com justiça para com o homem – é isso o que ouvimos desde a Antiguidade, em nosso mundo ocidental e nos grandes ensinamentos do Oriente, e como ensinaram Moisés, Hillel, Jesus, Maomé, os mestres da Índia, Buda, Sócrates e toda a hoste angelical dos espiritualmente sábios”, escreveu o professor de filosofia americano Jacob Needleman no livro Por Que Não Conseguimos Ser Bons?

A compreensão sobre a bondade genuína chega quando nos tornamos capazes de amar e não vemos mais o mundo do mesmo jeito. De uma maneira prática, essa transição até a bondade genuína pode ser resumida nas palavras atribuídas aos anjos e transmitidas a um pequeno grupo de jovens húngaros durante a Segunda Guerra Mundial. “Vocês ainda tentam tudo da maneira antiga: escuro-claro, bom-mau, frioquente. (…). O mal não existe, existe força não transformada (…). O mal é o bem em formação, o que ainda não está pronto. Não corrija o mal. Aumente o bem. Ele absorverá o mal que existe ao seu redor”. E, quanto mais consciente, verdadeiro e responsável esse bem, melhor.

LIVROS
Por Que Não Conseguimos Ser Bons?, Jacob Needleman, Cultrix
Diálogos Com o Anjo, Gitta Mallasz, Editora de Cultura

“O que se faz por amor sempre se faz além do bem e do mal.”

(Friedrich Nietzsche)

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